• Sabina Deweik

O futuro também nascerá de um ventre feminino



Há muitos anos a humanidade vive uma era de valores masculinos. Em todas as esferas de nossa vida aprendemos a competitividade, o individualismo, a ação, o foco em resultados, os resultados a qualquer custo, a racionalidade. Esta forma de viver e enxergar o mundo e as coisas está dando espaço à emocionalidade, à colaboração, à intuição, ao cuidado, à empatia — valores esses ligados ao feminino. E aqui não entra em questão o gênero masculino ou feminino, mas de uma forma de ser, viver, trabalhar e perceber o nosso entorno de maneira distinta.


Se pensarmos no mundo do trabalho, fica fácil entender o quanto nos movemos até agora segundo padrões do masculino. No mundo organizacional, por exemplo, as habilidades até então requisitadas em um colaborador era sua capacidade analítica e seu poder de gerar números e resultados. Até mesmo a competição foi super valorizada. A mentalidade era: tenho que ser melhor que meu colega porque posso não receber a tão desejada promoção. Ou ainda: Se ele/ela se der bem eu não vou me dar bem.

Aprendemos inúmeros valores herdados da Revolução Industrial. Adam Smith, em 1776, escreveu em A Riqueza das Nações, “Individualismo é Bom para toda a sociedade” ou “O consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção”. Esse modelo foi incorporado por nós como a única lógica vigente. Um modelo social e econômico impondo sucesso como uma forma para atingir a felicidade ou ainda a ideia de que mais é melhor. Um modelo no qual o fazer sozinho, o não compartilhar fazem parte da lógica. Um modelo que nos distanciou das emoções, da consciência, do sentido maior. O resultado: uma população com índices de depressão, suicídio, burnout, estresse, ansiedade. De acordo com uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão será o maior motivo de afastamento do trabalho no mundo. No Brasil, cerca de 5,8% da população tem a doença, o que faz do país o campeão de casos na América Latina. Em 2020, ano marcado pela pandemia do coronavírus, o número de pacientes com essas doenças aumentou ainda mais. Afinal, o isolamento social, o medo e a incerteza são catalisadores para os sintomas ansiosos e depressivos. Uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), revelou que nos meses de maio, junho e julho do ano passado, 80% da população brasileira tornou-se mais ansiosa.

Os índices demonstram que algo neste sistema está falhando. O aumento de bens de consumo e produtividade não é proporcional ao aumento de felicidade e bem-estar. Inclusive, a associação comum na nossa sociedade de que a satisfação pessoal estaria vinculada ao consumo, leva o ser humano a uma eterna insatisfação. Mas a boa notícia é que antiga lógica está começando a ser revisitada, dando lugar a uma série de valores emergentes que apontam a bússola para outra direção: a ascensão de valores do feminino. É só pensarmos em uma série de exemplos recentes. Em novembro de 2020, Kamala Harris se tornou a primeira mulher negra vice-presidente dos EUA e em seu discurso de posse mostrou entender seu papel e declarou: “Embora eu seja a primeira mulher, eu não serei a última. Para as crianças, não importa seu gênero, seu país mandou uma mensagem clara: sonhe com ambição, lidere com convicção. Se veja de maneiras que os outros não te vêem”. Greta Thunberg, a ativista ambiental sueca, aos 17 anos, é também exemplo de força e atuação feminina inspirando milhares de manifestantes pelo mundo a combater o aquecimento global. Sem falar da atuação feminina, que mostrou que países liderados por mulheres responderam melhor à pandemia do coronavírus. Uma pesquisa publicada na Harvard Business Review, descobriu que os resultados relacionados à COVID-19, incluindo o número de casos e mortes, eram sistematicamente melhores em países liderados por mulheres. Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, foi elogiada pelas duras medidas adotadas quando as mortes no país pelo novo coronavírus eram apenas 12 (em abril de 2020). O mesmo aconteceu com a primeira ministra da Islândia, Katrín Jakobsdóttir, que apostou cedo em testar massivamente sua população. Na Alemanha, Angela Merkel recebeu o título de ‘campeã’ entre líderes do continente europeu no combate à pandemia.


A análise que faço destes exemplos é que o modelo hegemônico de gestão masculina direcionou nossa sociedade para o crescimento econômico, porém falhou nos atributos de cuidado, respeito e empatia. Liderar com força não basta. Faz-se necessário exercer sensibilidade, senso de cuidado, diálogo e trabalho cooperativo independente de gênero.

Outra mudança no mundo é a substituição da lógica do ter para a lógica do compartilhar. Vamos desfazendo a necessidade de pagar pela propriedade de algo para ter a experiência com algo. Segundo Jeremy Rifkin, em seu livro A Era do Acesso, “A transformação do capitalismo industrial para cultural está desafiando muitas de nossas suposições básicas sobre o que constitui a sociedade humana. As antigas instituições fundadas nas relações com propriedade, nas trocas de mercado e no acúmulo de bens materiais estão sendo arrancadas lentamente para dar lugar a uma era em que a cultura se torna o recurso comercial mais importante, o tempo e a atenção se tornam a posse mais valiosa e a própria vida de cada indivíduo se torna o melhor mercado”. E, ainda que a pandemia tenha abalado esse tipo de economia com pessoas rejeitando totalmente a ideia de compartilhar “coisas” (carros, casas, vestidos de festa ou brinquedos) a economia colaborativa tende a expandir seu conceito na era pós-pandêmica. O grande ativo a ser compartilhado será o tempo de cada pessoa. “A essência da economia compartilhada não está apenas na utilização mais otimizada dos recursos, mas também do tempo”, diz Alexandre del Rey, da FIA.


Me parece que, a partir destas e outras inúmeras evidências, podemos dizer que estamos vivendo uma transição em que o ´ter´ está dando espaço para o ´ser´. Essa prerrogativa está sendo impulsionada pelas novas gerações, principalmente a geração Y, nascida entre fins dos anos 1970 e início dos anos 1990, e a geração Z, nascidos entre o fim de 1992 a 2010. Esses jovens começaram a trazer à tona o conceito de propósito. Para eles, assim como para a geração Z, o fazer precisa fazer sentido. Uma pesquisa da DoSomething Stategic mostrou que mais de 75% dos jovens escolhem comprar um produto de uma marca que apoia causas em comum e 85% estão dispostos a doar parte do seu tempo para alguma causa. Essa é definitivamente a geração que mais se importa com causas coletivas. Um dado interessante sobre os Millennials destaca que 43% deles citam os programas de bem-estar da empresa como um motivo para permanecer no emprego. O que parece é que a antiga mentalidade do fator financeiro ser decisivo no trabalho, está sendo substituída por um novo mindset. O cuidado, o bem estar, o respeito, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, os valores e as oportunidades de crescimento e evolução passam a ser os critérios decisivos para trabalhar ou não para uma organização.


Quando vamos por esse caminho, me parece que estamos acessando uma maior consciência, que ainda está em evolução. Depois de muito tempo de resultados, de racionalidade, de ação passamos a dar espaço para nossas emoções, dentro e fora do mundo corporativo. Nos permitimos por exemplo falar de empatia no mundo do trabalho. O masculino também está sendo ressignificado, e hoje, sua única função não é prover, mas cuidar e exercer outros papéis. O que historicamente era função do masculino ou do feminino está sendo revisitado. No universo do consumo, as marcas já estão incorporando esses novos conceitos. A Hering, ano passado, substituiu o termo “tomara que caia” por “blusa sem alça” em toda sua comunicação. A Gillette, por exemplo, lançou em 2020 a campanha “Você está pronto”, estabelecendo um posicionamento contra a masculinidade tóxica. Como o maior público da marca é formado por homens, a iniciativa visa destacar bons exemplos de masculinidade e ajudar a construir referências positivas em momentos que envolvem desde a paternidade até a igualdade de gênero.


O capitalismo regenerativo, a busca pelo autoconhecimento, a valorização do silêncio, da natureza, a valorização de técnicas de colaboração, de autoconhecimento como CNV (Comunicação Não Violenta), Mindfulness, Yoga, o crescimento do coaching como ferramenta de desenvolvimento humano apontam para o mesmo lugar: a emergência de uma era mais feminina. O livro Liderança Shakti dos indianos Nilima Bhat, criadora da filosofia, e Raj Sisodia, líder do movimento “Capitalismo Consciente, fala justamente desta transição de paradigma. “Tanto os homens quanto as mulheres foram condicionados a valorizar características de liderança que tradicionalmente são consideradas masculinas: hierárquica, individualista e militar”, dizem eles. “Nós reanimamos um arquétipo feminino de liderança: regenerador, cooperativo, criativo e empático”, acrescentam os autores.


O feminino é circular, emocional, intuitivo, colaborativo, empático, compassivo, flexível, adaptável, acolhedor, solidário, multidisciplinar. O feminino permite um encontro genuíno com o eu, com a consciência de si, do outro, do mundo. Independente de gênero, o que o mundo precisa é trazer esses valores do feminino para todas as esferas e domínios da vida. Reconhecer o feminino em si, é reconhecer nossos valores mais humanos. É um antídoto para muitos anos de desconexão e não consciência.

Um novo futuro poderá nascer deste ventre feminino indicando o rompimento de padrões de hierarquia, de militarismo, de força exagerada, do ter em detrimento do ser. Um novo futuro poderá nascer deste ventre feminino gerador de universos regenerativos, empáticos, humanos, igualitários, sustentáveis e equânimes.


Ilustração da capa: Roberlan Borges Paresqui


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